Compreendendo a psicologia da percepção do risco para melhorar o gerenciamento de risco

Em 2013, a Risk Management propôs a seguinte reflexão em um de seus artigos: “você percebeu que é quase impossível fazer com que todos concordem sobre como (ou mesmo se deve) praticar o gerenciamento de riscos em sua empresa?”

Se de uma ponta é difícil fazer com que todos concordem sobre como a gestão de riscos deve ser realizada, da outra temos um problema maior. Trata-se da percepção do risco. Pense, por exemplo, na sua vida. Para uma pessoa o risco de bater o carro pode ser considerado pequeno, enquanto outra o enxerga como algo altamente provável.

Assim como as pessoas, as organizações têm atitudes perante os riscos que as levam a conclusões diferentes sobre a melhor maneira de gerenciá-los. A chave pode estar em entender a psicologia que existe por trás da percepção do risco. Confira!

Atitudes perante riscos

Pesquisas conduzidas na década de 1980 identificaram quatro perspectivas básicas de risco. Nas empresas, conforme o texto “How Do You See Risk? – Risk Management Is All About Your Perception” a maioria das pessoas costuma se identificar com uma delas.

No primeiro grupo temos os maximizadores (maximizers). Nesta perspectiva os lucros são mais importantes que o risco em si. Gestores que seguem essa linha acreditam que os ganhos acabarão compensando as perdas. Ou seja, empresas gerenciadas com a percepção de “maximizadores” aceitam assumir grandes riscos desde que haja uma compensação financeira.

Em um outro grupo existem os conservadores (conservators). A percepção do risco aqui é a seguinte: aumentar os lucros deve ser tão importante quanto evitar perdas. Empresas com essa perspectiva costumam evitar todo tipo de risco.

Do outro lado temos os gerentes (managers), em cujo grupo estão aqueles que têm como ponto principal conseguir equilibrar riscos e recompensas. Organizações lideradas por “managers” gerenciam e calibram cuidadosamente a quantidade e o tipo de risco.

Para eles, o foco é encontrar riscos que ofereçam melhores recompensas – maximizando oportunidades – ao mesmo tempo em que outros são gerenciados para manter a empresa segura. Normalmente, organizações que adotam a perspectiva do risco de “gerentes” contam com auxílio de especialistas que traçam a melhor estratégia.

Por fim, a quarta atitude é a dos pragmáticos (pragmatists). Na visão deles o futuro não é muito previsível. Dessa maneira, não acreditam que seja necessário um planejamento e preferem ter liberdade para reagir às mudanças à medida que vão surgindo. Colocando em outros termos, operam taticamente, reagindo a cada novo desenvolvimento.

Bom, mas se até aqui apresentamos as quatro atitudes perante os riscos, dando um passo atrás, o que exatamente faz com que existam essas percepções?

Fatores que influenciam a percepção do risco

De acordo com o artigo “Eye of the Beholder: Understanding the Psychology of Risk Perception to Improve Risk Management”, de John J. Brown, nossa reação aos riscos pode ser fruto da necessidade de sobrevivência de nossos antepassados.

Para os humanos primitivos existiam duas opções: ou eles eram os caçadores ou transformavam-se em caça. Eles respondiam ao perigo lutando ou fugindo, e o sucesso dependia de quão rápida e correta fosse a tomada de decisão.

Apesar de que hoje tenhamos tempo para obter informações, analisar riscos e desenvolver uma resposta fundamentada, tendemos a deixar que o modo reativo de nossos ancestrais substitua nosso pensamento cognitivo.

Existem diversos fatores que nos fazem agir assim e que, por conseguinte, prejudicam nossa capacidade de desenvolver uma avaliação precisa dos riscos. São eles:

Heurística

Para o autor este é o principal fator que influencia a percepção do risco. Ele detalha que “heurísticas são métodos práticos de solução de problemas que servem como atalhos em nosso pensamento cognitivo, influenciados por nossas experiências de vida”.

A fim de explicar melhor, Brown usa o exemplo de que, ao invés de passar de A para B para C para D, as heurísticas nos fazem pular diretamente de A para D. O lado positivo é que ela pode nos poupar tempo caso haja alinhamento entre a situação atual e a base da nossa heurística.

Todavia, reforça o autor que se as informações nas etapas B ou C indicarem um caminho diferente, saltar de A para D pode resultar em uma conclusão completamente errada.

Os processos de pensamento heurístico são afetados pelos vieses, os quais têm um grande impacto na maneira como identificamos, analisamos e avaliamos os riscos. Vieses importantes na percepção de risco incluem:

  • Viés de ancoragem: ao considerarmos qualquer situação, é o primeiro ponto de dados relevante que levamos em conta. “Por exemplo, se estamos comprando um veículo usado, a primeira pessoa a oferecer um preço estabelece uma gama de preços razoáveis ​​na mente de todos, ancorados no primeiro valor declarado”, escreve Brown.
  • Viés de disponibilidade: a tendência neste caso é a de fazermos julgamentos e tomarmos decisões com base em informações novas, recentes ou dramáticas. Diante de um risco, nossas memórias desaparecem rapidamente e esquecemos a importância do que aconteceu há dois anos. Esse viés é especialmente perigoso por estarmos ativos em mídias sociais.
  • Viés de confirmação: as pessoas tendem a somente aceitar informações que reforcem seu ponto de vista e acabam desconsiderando outros dados, independentemente de quão precisos ou relevantes sejam.
  • Viés do conservadorismo: oposto do viés de disponibilidade, pois neste caso descartamos informações novas e favorecemos o conhecimento que obtivemos ao longo do tempo. É o perigo do “sempre fiz desse jeito e deu certo, por que muda agora”?.
  • Viés de informação: caso em que buscamos muitas informações mesmo que elas não afetem as decisões sobre como agir ou reagir. Assim, corremos o risco de não agirmos em tempo hábil.

Relevância do tempo

Nossa percepção do risco nesse caso é a de tornar mais importantes os riscos que ocorreram mais recentemente e deixar de lado os que aconteceram há mais tempo. Um exemplo citado pelo autor é dos ataques terroristas de 11 de setembro.

Após o atentado, foram implementadas medidas significativas para garantir a segurança de viagens aéreas. Essas medidas estão em vigor até os dias de hoje. No entanto, o fato é que os terroristas podem também atacar outros meios de transporte ou locais de reunião pública, mas nosso cérebro ainda se preocupa com os aviões.

Controle

A percepção do risco pode ser afetada pelo controle. Por exemplo, acreditamos que é mais seguro pegar a estrada do que voar, porque quando entramos no avião não temos controle da situação.

Experiência e familiaridade

Este é um dos principais fatores que influencia nossa percepção do risco. Brown explica que nesse caso, quando não temos conhecimento em primeira mão de um risco, é grande a probabilidade de o desconsiderarmos e, portanto, não nos planejarmos para lidar com suas consequências.

Todavia, um alerta: se por um lado o fato de termos experiência em lidar com um risco pode o tornar mais provável, por outro ao estarmos constantemente expostos a um risco podemos desconsiderar suas consequências porque, talvez, estejamos adaptados a ele.

Como fazer uma compensação?

Uma vez adotada a gestão de riscos, a mesma deve ser aprimorada com o tempo, pois o ambiente em que estamos inseridos também muda constantemente, dessa maneira mudando o impacto de uma ameaça.

Para identificar, analisar e avaliar riscos de modo mais preciso – sem deixar que a percepção do risco atrapalhe – Brown sugere algumas técnicas.

Uma delas é fazer um ajuste entre probabilidade e consequência. O autor comenta que há vários programas de gerenciamento de riscos que determinam os níveis de risco combinando estimativas de probabilidade de ocorrência e magnitude de consequência.

“Técnicas simples como adicionar ou multiplicar as classificações juntas são frequentemente usadas e, em seguida, é derivado um esquema para decidir os limites da significância do risco”, explica. Contudo, o autor reforça que essa abordagem negligencia os riscos de baixa probabilidade mas de alta consequência.

Outra técnica é fazer a mesma pergunta de várias maneiras. Desse modo, nossa percepção do risco pode mudar à medida que temos respostas mais precisas. Também pode-se fazer a mesma pergunta para várias pessoas de diferentes níveis organizacionais, e em momentos diferentes.

Não esqueça ainda que assim como os riscos são dinâmicos, o mesmo deve acontecer com um programa de gerenciamento de riscos, o qual deve seja contínuo. O autor destaca que riscos emergentes não esperam pelas avaliações de risco para aparecer. Para evitar qualquer surpresa o ideal é alinhar a estrutura e ritmo operacionais com os processos de gerenciamento de riscos.

Por fim, como técnica, Brown cita o uso da tecnologia. Em especial, os avanços na inteligência artificial e na análise de dados, pois ambos podem fornecer informações valiosas sobre ambientes de risco e riscos emergentes.

Pensamentos finais

Este artigo procurou mostrar que as influências psicológicas na percepção do risco podem afetar a maneira como nossas organizações respondem às ameaças e oportunidades (lembrando que um risco pode ser tanto positivo quanto negativo).

A partir do momento em que essas influências são compreendidas, torna-se mais fácil melhorar a eficácia do gerenciamento de riscos – sempre tendo em mente que toda estratégia de riscos deve constantemente evoluir e se adaptar.

Se sua empresa ainda não gerencia riscos, sugerimos a leitura de um e-book gratuito que poderá ajudar: Adote a Gestão de Riscos na sua empresa.

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Créditos imagem: Unsplash por Jonathan Borba

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